Domingo, 27 de Março de 2011

“Portugal está em processo de desertificação”

Olímpio Alegre Pinto, geógrafo: “Portugal está em processo de desertificação”

 

O antigo director do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) fala das medidas urgentes necessárias para minimizar o flagelo dos incêndios florestais de Verão e o impacto das alterações climáticas no futuro da Humanidade. Recorda também os tempos em que esteve à frente da maior reserva natural da região.

O que falta fazer para que os incêndios deixem de ser um flagelo nacional?
A primeira medida é o ordenamento florestal, que faz parte do Ordenamento do Território. Enquanto isso não for feito e bem, não acredito que o problema possa ser resolvido. É preciso ter uma atenção especial com as espécies plantadas, com a dimensão das manchas florestais, acessos e proximidade de localidades. Recordo-me de ter lido um livro que alertava para o “empinheiramento” de Portugal – e depois aconteceu a “eucaliptização”. O pinheiro é autóctone do País, mas apenas na faixa litoral. Por razões essencialmente económicas e por falta de conhecimento, expandiu-se a espécie para tudo quanto é sítio. Hoje, cerca de 40% da área florestal nacional é de pinheiro e outro tanto de sobreiro. O eucalipto preenche quase 20% e sobra uma parte ínfima de azinheiras e quercus. A floresta autóctone que deveria ser plantada seria de sobreiro, azinheira e folhosas (castanheiros e carvalhos). É tão óbvio que até me custa dizer o que se deve fazer em termos de ordenamento, para mais sabendo que há estudos recentes sobre o assunto.


Quais são as medidas mais urgentes?
Reunir especialistas – ministérios da Agricultura e do Ambiente, autarquias, agrónomos, silvicultores, geógrafos, geólogos e ecologistas - e preparar um plano de conhecimento in loco e aplicá--lo. O processo deveria ser iniciado imediatamente. Infelizmente, não o pudemos iniciar há 30 anos, quando era desejável, até imperativo, que tivesse sido feito... A aposta deve ser no ordenamento e prevenção. O ataque ao fogo continuará a ser necessário, uma vez que estas medidas nunca vão conseguir acabar a 100% os incêndios, mas muitas situações seriam evitadas a priori e nunca abrangeriam os milhares de hectares que ardem todos os anos. Contudo, é preciso ter a noção de que, nas presentes condições, dificilmente os bombeiros conseguem apagar incêndios. Com a carga térmica que existe e a velocidade com que eles se propagam, como conseguem? Apesar do muito esforço e até sacrifício, as chamas só se extinguem quando acaba o combustível.

Atribui-se origem criminosa a muitos dos incêndios. Vivemos mesmo num País de pirómanos?
É uma situação que entra na questão psicológica. É complicado definir o que é um pirómano. É um doente mental que gosta de ver coisas a arder. Não é aquele que, embriagado ou por quezílias familiares ou outras, ateia fogos. Esse é criminoso. No primeiro caso, têm aparecido bombeiros que escolheram essa ocupação pela proximidade com os incêndios. Se estamos a falar de um doente mental, então deve ser encaminhado para um estabelecimento de saúde. Se é um criminoso – e alguns são reincidentes – deverá ser julgado de acordo com a Lei.

E os autores morais?
Estou convencido de que eles existem. Isso leva-nos a questões de cidadania, respeito e formação/instrução. Normalmente, nestes casos, está associado um qualquer tipo de lucro e interesse. Mas não me parece que estes sejam a maior parte. A maioria dos fogos tem como origem os acidentes, falta de percepção e incúria e atinge grandes proporções devido ao não ordenamento da floresta. Se um criminoso ou um doente mental atear um fogo numa zona ordenada, a probabilidade de propagação é mínima e o prejuízo será pequeno. Uma floresta de sobreiros não arde da mesma maneira que uma de pinheiros, que ainda por cima são resinosas, altamente combustíveis, que deixam muita caruma que permanece, por resistir à decomposição mais que uma folha de castanheiro ou carvalho.

A substituição dos pinheiros e eucaliptos por carvalhos e castanheiros, permitiria preservar recursos hídricos?
Sem sombra de dúvida, em todo o território. Uma planta de trigo absorve e coloca, por transpiração, no meio ambiente, em média, 210 litros de água, durante o seu ciclo vegetativo. E estamos a falar de uma espécie de sequeiro. Uma árvore adulta, faz circular, cerca de 300 litros por dia. Se perdermos uma floresta, devido ao corte ou incêndio... quantas toneladas de água, por dia, deixam de entrar no ciclo vital da água? Nos princípios dos anos 90, durante um simpósio internacional  sobre a desertificação em Portugal, considerou-se que a parte Sul do País, até um pouco acima do Tejo, está em processo de desertificação. Não sei o que mais seria preciso para fazer soar todos os alarmes... claro que as causas da inacção vão dar à política.

O poder central deveria tomar conta do processo? Uma vez que a população espera sempre que as medidas venham de cima.
Certamente. O impacto seria muito maior. Além disso, muita gente, por desconhecimento desta questão, não vê necessidade de agir. Há quem, porque tem de sobreviver e lutar, só pense no dia de amanhã e não veja muito além disso. Sabemos como está a desertificação humana no interior do País. Era essencial que, aos diversos níveis da Administração, as pessoas fossem  sensibilizadas e informadas para motivar e fazer com que todos os cidadãos colaborem. O governo é que tem os meios e a força para mobilizar as pessoas à volta deste projecto comum. Além disso, a  população precisa de uma acção sistemática e continuada de informação, onde os media têm um papel fundamental.

A população não tem noção da riqueza do PNSAC
Que memórias guarda do tempo em que foi director do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC)?
Excelentes! E em diversos aspectos. Em primeiro lugar, a colaboração dos meus colegas do PNSAC foi fora de série! Estávamos mobilizados em torno de um objectivo. Para mim, o que era importante era ser claro e executar claramente. Sempre apoiei o mais possível os meus colegas, fosse no que fosse. Incondicionalmente. Estava no parque há pouco mais de dois meses quando a secretária me disse que estava lá fora uma pessoa para falar comigo. Mandei entrar (nunca recusei receber, ou fiz esperar para falar comigo, fosse quem fosse). Entrou um rapaz que se sentou à minha frente. Disse que era serralheiro, que morava dentro dos limites do PNSAC, que tinha três filhos, todos a estudar, que tinha uma horta e que concordava com o parque, pois “é preciso proteger as coisas”. Ao fim de um quarto de hora daquela conversa, atalhei e perguntei qual era o assunto que o levava ali. E ele respondeu que não era nenhum. “Só quis conhecê-lo! Disseram-me que tem uma faca muito afiada e que corta tudo a direito. Vim ver se era mesmo verdade.” Convidei-o a tomar um café e a falar sempre que quisesse, mas não voltou a aparecer.

A população tem noção da riqueza do PNSAC?
Não tem muita noção ou não se importará muito. Paralelamente ao que exprimiam, havia, em 90% das situações, um interesse subjacente, em regra económico. Noutras situações, político.


As pedreiras têm lugar num parque natural?
A gestão desse tema era diária. Quando cheguei ao PNSAC, em 1999, havia 303 pedreiras em funcionamento. Dessas, só 60% eram legais. Quando de lá saí, dois anos depois, havia 503 e 95% estavam legalizadas. É possível aliar um interesse ao outro. O grande problema - e para isso é preciso tacto - é conciliar os interesses legítimos das populações com os da conservação da natureza, que não dão lucro imediato. Mas quando o dão, é ao quadrado. Para conciliar é preciso sensibilizar e mostrar às pessoas as mais-valias que temos.  Se souberem o que têm, melhor o defendem. É claro que as pedreiras representam emprego para muita gente e têm um grande valor em termos de exportação. Então o que fazer? Acabar com elas? Nem pensar! Mas tudo só pedreiras? Claro que não! Recordo-me que, em 1999, comecei a ouvir que Alqueidão da Serra iria boicotar as eleições de Outubro. Queriam explorar pedra preta - única no País - onde houvesse, e não os deixavam. Fui a uma reunião na junta de freguesia que se prolongou até às 3 horas da manhã. A sala estava cheia. Ouvi os argumentos e expliquei os meus. Conversámos muito. Quando saí, com tudo resolvido, as pessoas de lá convidaram-me a ir comer uma alheira e a beber um copo de vinho. Foi muito grande a minha satisfação!

O que foi que lhes disse?
Falei-lhes com o coração. Perguntei-lhes onde queriam viver, se não gostavam de ouvir os pássaros e olhar e ver as árvores à volta de casa? Será que queriam destruir tudo isso e ficar apenas com pedra? Vão comer a pedra? Pedi--lhes para fazerem contas à vida. Se achavam bem a ausência de regulação? “Explorar onde houver”, seria uma espécie de caos. No final da noite, venceu o bom senso da população. Depois foram votar, e continuou a aplicar-se o Plano de Ordenamento do PNSAC.

O bem-comum da Humanidade teria de suplantar os grandes interesses económicos para alterar esta situação...
Sim. Os interesses económicos são uma questão muito complexa... Estou muito preocupado com a Humanidade e com o nosso País. Como “seres civilizados”, existimos há oito ou dez mil anos. Como espécie, somos um grãozinho na grande praia do tempo. Onde estaremos daqui a oito mil anos, se as coisas  continuarem a este ritmo? Perante a eventualidade da Terra deixar de nos poder suportar, alguém apontou a solução de colonizarmos outros planetas. Uma nave para fazer o trajecto até outro planeta teria de ultrapassar a velocidade da luz e ainda não se sabe como fazê-lo. Mas, independentemente disso, o sistema económico mundial seria incapaz de suportar os custos da criação de veículos de transporte planetário, equipamento e alimentação, para transportar uma população humana viável para um planeta distante. E que planeta? E nem sequer colocava em cima da mesa o factor tempo. Estamos limitados à Terra. Nem a Lua, nem Marte são alternativas. Não é viável, economicamente, criar ali colónias. Íamos ter a população mundial a trabalhar para alcançar esse objectivo. n

“Somos um grãozinho”

As alterações climáticas são inevitáveis? É possível minimizar o processo?
É um assunto controverso. Há cerca de 25 anos, eu estava a fazer climatologia, na faculdade, e por estudos e percepção, já achava que estávamos numa situação de aquecimento global. Eu e mais dois ou três colegas. Mas os professores acreditavam que as alterações na temperatura do planeta era normais. Afinal, a última glaciação terminou há apenas dez mil anos - pois... e também, a variação média da temperatura global é de um grau em dez mil anos. A minha argumentação assentava no facto de, a espécie humana, desde o século XVIII, ter aumentado enormemente o consumo de combustíveis, a emissão de dióxido de carbono e a desflorestação. Parecia-me óbvia a relação directa de causa-efeito no aquecimento global. Estamos a intervir muito no “sistema global Terra” e de uma forma que resulta numa subida rápida da temperatura, fora dos ciclos “normais” da mecânica planetária. Como espécie, estamos cá há cerca de 35 mil anos (Cro-Magnon) e apenas desde há 200 anos é que começámos a deixar esta enorme pegada ecológica, quando se deu a  Revolução Industrial e o consequente e sempre crescente consumo de energia. A China tem apenas 20 anos de consumo energético intensivo crescente, poluição e danos ambientais profundos... e o impacto ambiental causado na ex-URSS, com os seus planos de produção quinquenais?

Em formação contínua

Olímpio Alegre Pinto, 66 anos, geógrafo de formação. Foi director do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros entre 1999 e 2001, a que se seguiu a direcção do Parque Natural do Tejo Internacional. Frequentou 22 estabelecimentos de ensino diferentes e oito faculdades de seis universidades diferentes. Embora tenha ingressado no ensino superior como aluno de Engenharia, na Academia Militar, até ao 5º ano do curso, após ter combatido na guerra do Ultramar, acabou por licenciar-se em Geografia, na Universidade de Lisboa. A esta licenciatura juntou duas pós-graduações, uma em Ciências da Educação. “Quase de seguida, na Nova, fiz mais uma pós-graduação em Ordenamento do Território e Planeamento”, recorda. E tudo começou porque, em 1971, um familiar, como prenda de casamento, ofereceu a Alegre Pinto uma assinatura anual da National Geographic Magazine. “Tenho décadas de assinaturas da revista. Num dos números editados na década de 70, sobre a Amazónia, verifiquei que sete milhões de hectares, por ano, desapareciam, na região tropical, por acção do Homem. Acendeu-se uma luz cá dentro. Anos depois, já eram 17 milhões”, lembra. Não foi a razão exclusiva, admite, mas foi muito motivadora para a troca de curso. Nos tempos livres, adora “caçar” animais e plantas, com a objectiva da máquina fotográfica. Executa funções no Instituto de Conservação da Natureza há 21 anos, sendo, actualmente, técnico superior na instituição.

Textos: Jacinto Silva Duro

Fotos: Ricardo Graça

 

Fonte: Jornal de Leiria

publicado por pnsac-viveatuanatureza às 14:54

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